Tuesday, November 21, 2006

 
Qualquer dia, talvez hoje,
escrevo o último poema;
é um vício, faz-me mal.
Além disso, já me foge
a inspiração de tema
que em mim seja original.

Senão hoje, qualquer dia
escrevo o meu último fado;
é um vício, faz-me dor.
Já me farta a fantasia
de tanto amor decantado,
morrendo à sede de Amor.

Talvez hoje ou amanhã
eu desista de viver;
é um vício, é tortura.
Toda a minha esperança é vã
de ter Paz antes de ter
a paz duma sepultura.

Talvez, enfim, só então
eu mereça o reconforto
ao menos duma saudade.
E serei, no meu caixão,
o homem, poeta e morto
mais feliz da Humanidade.

João Rosa

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