Tuesday, November 21, 2006

 
Qualquer dia, talvez hoje,
escrevo o último poema;
é um vício, faz-me mal.
Além disso, já me foge
a inspiração de tema
que em mim seja original.

Senão hoje, qualquer dia
escrevo o meu último fado;
é um vício, faz-me dor.
Já me farta a fantasia
de tanto amor decantado,
morrendo à sede de Amor.

Talvez hoje ou amanhã
eu desista de viver;
é um vício, é tortura.
Toda a minha esperança é vã
de ter Paz antes de ter
a paz duma sepultura.

Talvez, enfim, só então
eu mereça o reconforto
ao menos duma saudade.
E serei, no meu caixão,
o homem, poeta e morto
mais feliz da Humanidade.

João Rosa

 

SEGREDO

Ninguém julgue saber tudo
pelo que tem visto e ouvido
do meu presente e passado.
Porque eu tenho um cofre mudo,
cego, surdo, bem escondido
e a sete chaves fechado.

Nesse cofre de saudades
há tesouros que só Deus
sabe quais são e não diz:
lembranças de felicidades
que hei-de levar p'rós Céus,
para lá ser mais feliz.

E, quando o mundo disser
"Ali jaz um pobre homem morto
que só dor leva consigo",
que te console saber
que, afinal, levo o conforto
desses tesouros comigo.

João Rosa

E o Verbo se fez Homem
e Habitou entre nós
e nós vimos a sua Glória (...)

- Que no Céu, meu Amor, se cante a tua Canção,
que a lembrança dos risos despreocupados e dos amores desapegados,
dance em teu redor, celebrando a Alma que És!

Paula, sentindo Harimal

 

ANTEVISÃO

Vou para velho.
Estou a caminho.

Já vejo ao espelho
e adivinho
a foto-passe
de fundo escuro
com esta face
já sem futuro.

Já vejo em frente,
espreitando bem,
o olhar ausente
que um velho tem
quando já não
tem mais memória
de si senão
a breve história
de cada imagem
de si num espelho.

Já de viagem
vou para velho.

Já lá me vejo.

Disso me abeiro
e já desejo
morrer primeiro.

João Rosa

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