Sunday, December 10, 2006

 

AMOR PERFEITO

À mullher-minha-Filha, Filomena

Por minha mãe,
escrevi maldições.

Por meus amores,
escrevi paixões.

Por minhas amantes,
algumas ilusões.

Por mim próprio,
várias emoções,
que tantas mulheres
me inspiraram em canções
de tons diversos;
dores e prazeres,
verdades e versos.

Mas tu, Filha, tu és
a única mulher da minha vida
por quem não tenho nem um verso fora do peito.

Porque Tu és, afinal, e só por seres quem és,
o meu Poema de Amor tão perfeito
...que nem precisa de ser escrito,
...que nem precisa de ser dito
- porque em Ti mesma está Feito !

João Rosa

 

TEUS OLHOS

Olhos do meu Amor! Infantes loiros
Que trazem os meus presos, endoidados!
Neles deixei, um dia, os meus tesoiros:
Meus anéis, minhas rendas, meus brocados.

Neles ficaram meus palácios moiros,
Meus carros de combate, destroçados,
Os meus diamantes, todos os meus oiros
Que trouxe d'Além-Mundos ignorados!

Olhos do meu Amor! Fontes... cisternas...
Enigmáticas campas medievais...
Jardins de Espanha... catedrais eternas...
Berço vindo do Céu à minha porta...
Ó meu leito de núpcias irreais!...
Meu sumptuoso túmulo de morta!...

Florbela Espanca

Tuesday, December 05, 2006

 

O HOMEM, O NASCIDO DA TERRA


O homem, o nascido da terra: como ele caminha, orgulhoso.
Mas não te tornes demasiado grande porque os "deuses gostam de baixar o que se eleva".
Da cultura os Mistérios exigem-te apenas a mão direita limpa,
que não tenhas morto;
que saibas grego se és grego, que saibas a língua da tua mãe, se és filho.
As rochas escondem crianças;
as almas andam no cortejo do ar: procuram carne: mães com força
para as mostrar, para as exibir ao sol.
Não te eleves: o céu é demasiado alto; lá em cima apenas o que
não consegue cair.

Gonçalo M. Tavares- POESIA 1

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